El derecho penal, en un Estado democrático de derecho, no puede ni debe ser utilizado como herramienta simbólica, correctiva o política. Su función es estricta: proteger bienes jurídicos esenciales mediante sanciones razonables, necesarias y proporcionales, conforme a los límites impuestos por el derecho internacional de los derechos humanos.
Brasil es Estado parte tanto de la Convención Americana sobre Derechos Humanos como del Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos, tratados que obligan a controlar no solo la legalidad formal de las normas penales, sino también la razonabilidad y proporcionalidad de las penas que ellas establecen y de su aplicación concreta.
Desde esa perspectiva, las penas de dos a cinco años de prisión previstas tanto para el delito de racismo como para la injuria racial, tal como hoy se encuentran legisladas y aplicadas en Brasil, plantean serios interrogantes de compatibilidad convencional, especialmente cuando recaen sobre conductas no violentas o de carácter estrictamente expresivo.
Debe recordarse que, a partir de la Ley 14.532/2023, el delito de injuria racial fue equiparado al delito de racismo, quedando reprimido con una pena de dos a cinco años de prisión y multa, además de adquirir el carácter de imprescriptible e inafianzable. Esta equiparación normativa eliminó la distinción tradicional entre discriminación estructural y expresiones individuales, extendiendo al ámbito del discurso una respuesta penal propia de los delitos más graves del ordenamiento.
El encarcelamiento, como máxima restricción de derechos fundamentales, solo resulta legítimo cuando supera un test estricto de proporcionalidad, algo que no puede presumirse automáticamente cuando se trata de expresiones verbales o conductas carentes de violencia material. La severidad de la escala penal aplicada a la injuria racial genera, en estos casos, una ruptura evidente de la armonía del sistema penal y una tensión directa con los estándares internacionales.
Pero la cuestión se agrava cuando el poder punitivo se ejerce de manera selectiva, con especial rigor en determinados casos, y con una carga discursiva que excede el ámbito estrictamente judicial.
En ese marco, la utilización del caso de Agostina Páez como referencia central o justificante de una política criminal más amplia despierta una legítima preocupación jurídica. El derecho internacional de los derechos humanos prohíbe expresamente que una persona sea convertida en caso testigo, chivo expiatorio o instrumento simbólico para compensar omisiones estatales pasadas o para enviar mensajes políticos hacia el futuro.
La igualdad ante la ley, consagrada tanto en la Convención Americana como en el Pacto Internacional, impide que el Estado aplique con máximo rigor una norma penal en un caso individual cuando conductas similares no fueron perseguidas con igual intensidad durante largos períodos. Ese tipo de selectividad erosiona la legitimidad del sistema penal y transforma la sanción en un acto de ensañamiento punitivo, incompatible con el principio de razonabilidad.
Asimismo, los tratados internacionales son claros al establecer que la pena privativa de libertad debe tener como finalidad esencial la readaptación social del condenado, y no la estigmatización, el castigo moral ni la ejemplificación pública. Cuando una pena de dos a cinco años de prisión se impone sin atender a la entidad real del daño causado y sin una evaluación estricta de necesidad, pierde su finalidad resocializadora y se convierte en un castigo meramente simbólico.
Nada de lo aquí expuesto implica negar la gravedad moral y social del racismo ni relativizar la obligación estatal de combatir toda forma de discriminación. Por el contrario, una lucha eficaz contra el racismo exige instituciones sólidas, políticas públicas consistentes y un derecho penal limitado, no expansivo ni ejemplificador.
El uso desproporcionado y selectivo del castigo no fortalece al Estado de Derecho: lo debilita. Y cuando el poder punitivo se aparta de la razonabilidad y la proporcionalidad, deja de ser justicia para convertirse en persecución brutal y estigmatización.
Por Sebastián Pardo
Abogado, Especialista en Derecho Penal.
O uso desproporcional do direito penal e o caso Agostina Páez: uma análise sob a ótica dos direitos humanos
O direito penal, em um Estado Democrático de Direito, não pode nem deve ser utilizado como ferramenta simbólica, corretiva ou política. Sua função é estritamente a de proteger bens jurídicos essenciais por meio de sanções razoáveis, necessárias e proporcionais, em conformidade com os limites impostos pelo direito internacional dos direitos humanos.
O Brasil é Estado parte tanto da Convenção Americana sobre Direitos Humanos quanto do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, tratados que impõem a obrigação de controlar não apenas a legalidade formal das normas penais, mas também a razoabilidade e a proporcionalidade das penas por elas estabelecidas e de sua aplicação concreta.
Sob essa perspectiva, as penas de dois a cinco anos de prisão previstas tanto para o delito de racismo quanto para a injúria racial, tal como atualmente legisladas e aplicadas no Brasil, suscitam sérios questionamentos quanto à sua compatibilidade convencional, especialmente quando recaem sobre condutas não violentas ou de caráter estritamente expressivo.
Cumpre recordar que, a partir da Lei nº 14.532/2023, o delito de injúria racial foi equiparado ao delito de racismo, passando a ser punido com pena de dois a cinco anos de prisão e multa, além de adquirir o caráter de imprescritível e inafiançável. Essa equiparação normativa eliminou a distinção tradicional entre discriminação estrutural e expressões individuais, estendendo ao campo do discurso uma resposta penal própria dos delitos mais graves do ordenamento jurídico.
O encarceramento, como máxima restrição de direitos fundamentais, somente se legitima quando supera um teste rigoroso de proporcionalidade, o que não pode ser presumido automaticamente quando se trata de expressões verbais ou condutas desprovidas de violência material. A severidade da escala penal aplicada à injúria racial gera, nesses casos, uma ruptura evidente da harmonia do sistema penal e uma tensão direta com os padrões internacionais.
A questão se agrava quando o poder punitivo é exercido de forma seletiva, com especial rigor em determinados casos, acompanhado de uma carga discursiva que extrapola o âmbito estritamente judicial.
Nesse contexto, a utilização do caso de Agostina Páez como referência central ou como justificativa de uma política criminal mais ampla desperta legítima preocupação jurídica. O direito internacional dos direitos humanos proíbe expressamente que uma pessoa seja convertida em caso exemplar, bode expiatório ou instrumento simbólico para compensar omissões estatais pretéritas ou para transmitir mensagens políticas voltadas ao futuro.
A igualdade perante a lei, consagrada tanto na Convenção Americana quanto no Pacto Internacional, impede que o Estado aplique com máximo rigor uma norma penal em um caso individual quando condutas semelhantes não foram perseguidas com igual intensidade ao longo de extensos períodos. Esse tipo de seletividade corrói a legitimidade do sistema penal e transforma a sanção em um ato de exacerbado rigor punitivo, incompatível com o princípio da razoabilidade.
Além disso, os tratados internacionais são claros ao estabelecer que a pena privativa de liberdade deve ter como finalidade essencial a readaptação social do condenado, e não a estigmatização, o castigo moral ou a exemplarização pública. Quando uma pena de dois a cinco anos de prisão é imposta sem consideração da real dimensão do dano causado e sem uma avaliação estrita de sua necessidade, ela perde sua finalidade ressocializadora e se converte em um castigo meramente simbólico.
Nada do que aqui se expõe implica negar a gravidade moral e social do racismo, nem relativizar a obrigação estatal de combater toda forma de discriminação. Ao contrário, uma luta eficaz contra o racismo exige instituições sólidas, políticas públicas consistentes e um direito penal limitado, não expansivo nem exemplarizante.
O uso desproporcional e seletivo do castigo não fortalece o Estado de Direito: enfraquece-o. E quando o poder punitivo se afasta da razoabilidade e da proporcionalidade, deixa de ser justiça para se transformar em perseguição brutal e estigmatização.
Sebastián Pardo.
Advogado, Especialista em Direito Penal.